quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Brasil, o menor senso de humor do planeta

Entre as lendas nacionais está a de que somos o país mais bem humorado do mundo. Na verdade parece que o que chamamos de humor trata-se de galhofa com tudo o que nos é incompreensível.

O tal complexo de vira-lata causado pelo isolamento cultural/intelectual faz com que qualquer coisinha vinda de outros países gere uma saraivada de “ai, ui, ai ui! Que revolta”. Hoje mesmo há centenas de comentários indignados na página da Folha contra portugueses.

Tudo porque os lusitanos fizeram um desenho animado onde aparece uma prostituta com sotaque brasileiro. Seria preciso lembrar quantas vezes personagens com sotaque português apareceram em humorísticos daqui?

Desconheço que algum jornal de Além Mar tenha feito tenha noticiado qualquer um que seja por lá. Mas não estranho visto a quantidade de perguntas relacionadas ao Brasil que Almodóvar teve que responder por ter colocado personagens daqui em seu recente A Pele que Habito (La piel que habito, 2011).

Tanta ingenuidade que chegaram a indagar de onde ele conhecia Pitangui! Sim!!! De onde alguém como o Almodóvar tinha ouvido falar do cirurgião plástico brasileiro reconhecido internacionalmente há uns 40 anos!

Outro dia perdi precioso tempo assistindo ao documentário Olhar Estrangeiro (2006 de Lúcia Murat) esperando ver dados pitorescos sobre a representação do Brasil no cinema internacional. Ao invés disso me deparei com perguntas constrangedoras direcionadas a pessoas que fizeram filmes que se passavam aqui há décadas.

Como se arte tivesse algum compromisso com o literal. Se há algo de errado na visão que os gringos têm da gente, caberia ao próprio país se preocupar em mostrar a diferença.

Ou será que tudo dói porque há alguma verdade nos clichés? Canais internacionais como a Record (do Bispo Edir Macedo) inundam a Europa com jornalismo que vendem o medo para angariar fiéis, onde se mata e morre por qualquer caraminguá, mas nunca vi alguém indignado com isso.

Histórico o caso do episódio O Feitiço de Lisa (Put Blame On Lisa, S13E15) de Os Simpsons, onde até o Governo Federal (!!!) exigiu formalmente um pedido de desculpas aos produtores. Sendo que o programa tira sarro não de qualquer país, mas dos clichés de qualquer país.

Foi assim com a Itália, Japão, Israel... Simplesmente não entendemos a piada, e merecemos isso ter sido lembrado no especial de 20 anos do programa.

Brasil um país de melindros... Que pode sacanear com todo o resto, claro! Afinal, nóis é soda!


34 comentários:

@fefelino disse...

Excelentes observações sobre as pessoas que habitam a terrinha.

Todo dia vemos sangue escorrendo pela nossa tela nos telejornais e quando filmes como "Tropa de Elite" ganham fama acham que exageram no que falam da nossa violência.

Esquecem que o carnaval é o evento mais conhecido fora do país, todo mundo chama os amigos para verem as festas nas ruas mas acham ruim quando a bunda é a parte do corpo mais valorizada.

Dura a vida desse povo - nós também - que achincalham clichês mas fazem questão de mantê-los.

Mais um texto inteligente e perspicaz vindo de você.

Parabéns

Miguel Andrade disse...

Fefelino, obrigado. Só queria que as pessoas se importassem da mesma forma com coisas realmente relevantes.

Diogo disse...

tenho medo de um mundo aonde Rafinha bastos é relevante e levado a sério.

Diogo disse...

O fato é que deve existir mesmo uma prostituta com sotaque brasileiro em portugal, isso não é óbvio?. eu e minha mãe ODIAMOS esses progamas que ficam noticiando barbaridades sistematicamente e cinicamente, é horrivel aquilo!

ps: Tropa de Elite é ruim e carnaval é ótimo.

Miguel Andrade disse...

Diogo, como qualquer piada, partiu de uma infeliz generalização. Mas piada é piada, há coisas tão mais ofensivas para nos indignarmos.

Brasileiro é um tipo que ama fazer chacota com tudo. Mas ninguém pode tocar no deles.

Poderiam começar por execrarem o comercial onde a Bundchen mostra que de calcinha o macho paga o cartão de crédito pra ela.

Mas todos acharam isso natural. Li muitas vezes que não havia problema no comercial.

Puta no Brasil deve significar outra coisa que eu não saquei ainda...

Diogo disse...

Miguel, nunca nem vi esse comercial mas li muitos artigos fazendo criticas e tal, Puta aqui no brasil é uma mulher dona do seu corpo e da sua mente.

Miguel Andrade disse...

Diogo, puta no Brasil é uma pobre coitada que fica na rua. Fora isso vale tudo!

Diogo disse...

Miguel, tu achas? sei não viu...

Miguel Andrade disse...

Diogo, pra tomar pedra aqui só quem é pobre. Não há povo mais classista que o nosso.

Diogo disse...

Miguel, e quando alguém aponta isso é chamado de "elitista". hahaha

Miguel Andrade disse...

Diogo, mas é a verdade. Grana aqui lava qualquer honra.

Não importa a procedência. Tendo dinheiro todas as portas se abrem.

Aliás, até impera a fé de que dinheiro é contagioso. Não importa o escroto que vc seja, com dinheiro todos querem ficar perto pra ver se são contaminados um pouquinho.

Dino Costa disse...

As brasileiras que moram em portugal já sentem na pele este tipo de preconceito. As brasileiras são mal vistas, tem fama de que roubam marido, e de modo geral eles não criam laços de amizade com brasileiros/as. É muito raro.

Nos Estados Unidos, o Brasil tem fama de lugar inseguro, cheio de ladrões. Quando vou ao correio, o rapaz logo fala, ah vai pro Brasil precisa de seguro.

Preconceitos existem sim, e é bom poder rir deles, mas cultivá-los também não ajuda a combatê-los.

Miguel Andrade disse...

Dino, concordo, mas fazemos o quê na prática pra abrandá-los?

Fazendo músicas chamando mulher de ordinária como se fosse um elogio? Novelas onde a mocinha dá feito louca pra todo mundo? Filmes passados em favelas?

Achando que torcer pelo país é torcer por ele na Copa do Mundo e fora isso basta sair ferrando quem estiver pela frente contanto que sobre dinheiro no nosso bolso?

Há um circulo social e histórico envolvendo o país, com os próprios brasileiros aprovando isso por comodismo, que só piora a situação.

O que vejo é um país que xinga Argentinos, paraguaios, chineses, chama portugueses de burros o tempo todo mas que vota no Tiririca, acha normal mulher usar o corpo pro marido pagar as contas, etc.

Daí qualquer coisinha que se fale deles é essa choradeira sem fim.

PS: Como pudemos nos acostumar a usar grades nas janelas? Como achamos isso natural?

Refer disse...

Acho que esse estranhamento que sentimos em relação a nós mesmos se deve ao isolamento cultural em que vivemos há séculos. É como se fôssemos de outra galáxia. Tudo contribuiu para isso, a língua, a geografia, a nossa história, a política etc. etc.

Sofremos de um complexo de inferioridade imenso que vai à superfície toda vez que temos contato com o não brasileiro.

Antes, ainda era possível ficarmos recolhidos, remoendo os defeitos, agora o mundo mudou, se globalizou, as distâncias encurtaram e as nossas deficiências se escancararam.

A reação brasileira é sempre magoada, ressentida, igual a da criança mimada, egoísta e egocêntrica, que acha que o mundo existe porque ela existe.

Miguel Andrade disse...

Refer, disse bem! Não conseguimos evitar aquele discursinho de maricota de vila magoada com a vizinha.

Se esse ego ferido fosse convertido para termos um país melhor. Serve pra xingar e ofender qualquer coisa que seja diferente de nós.

Gozado que na hora de votar sabe-se da importância de cada um. Na hora de querer um país melhor espera-se sempre atitudes dos terceiros.

Daniel Tavernaro disse...

Como diria Myrna, "Brasileirro é tão bonzinho!.." Não tem algo maior que seja "um tapa de luva" como essa frase; afinal, sempre soou pra mim como uma crítica a nossa idiotice.


E, por ser tão ralé perante a cultural de outros países, acaba sendo motivo de chacota em outros lugares. Se dói por muito pouco, enquanto há feridas muito maiores e profundas para fazer chorar...

Eu nem ligo mais. Brasileiro gosta de parecer ser alguém "entendido" em cultura, em diversas informações; mas é superficial em quase tudo, beira um nível crítico quando expõe e opina. Quer penetrar em todas as classes e estilos, mas sem razão aparente; e sim, por simplesmente "estar". Quer gritar, mas nem imagina por que, para quem ou quando. Afinal, não temos escolaridade suficiente para que possamos analisar com um grau crítico mínimo. Ai, choramos por migalhas, não nos adaptamos aos rótulos impostos por nós mesmos e continuamos a nos sentir inferiores.

Miguel Andrade disse...

Daniel, o mais estranho é que há muita coisa realmente forte e relevante em nosso país para nos orgulharmos...

Mas é um povo tão colonialista, isolado, com uma visão tão simplista, que seu foco está sempre no lugar errado. Não conseguem nem admirar o que é único aqui.

Leticia disse...

Opa, discussão da boa aqui!

Tenho dois tópicos a acrescentar.

1) Brasileiro, grosso modo, só vai pra fora pra trabalhar em subemprego e na prostituição. Poucos casos, estatisticamente, em que alguém sai pra dar palestras ou ir a congressos ou simplesmente ser chamado por uma empresa grande pra trabalhar lá fora.

Paralelamente, e tb. grosso modo, brasileiro não tem compostura e acha pedantismo os hábitos alheios. Se acha superbacana tirar os sapatos em casas japonesas, começa a berrar se alguém acha ruim ele ir jantar de moletom em Paris. Então, tem a fama que merece mesmo, pois é um jeca.

2) A gente não precisa sair daqui pra sofrer preconceito. Exemplo de experiências pessoais por região:

Situação um: Imagina eu, com sotaque carioca, desinibida no melhor sentido e dona do meu nariz, num rincão qualquer. Pois é, aconteceu de as mulheres me maldizerem e os homens chegarem achando que eu era um puxadinho da vida alegre.

Outro tipo de preconceito: você ser elite. Sim!!! Pelo Censo, eu, você e todo mundo aqui é elite. E dá-lhe ovos e acusações de megalomania e de ego imenso.

Gloriosa banana, para as duas situações.

Miguel Andrade disse...

Letícia, certíssima! Generalizar é com eles mesmos, mas ai de quem faça o mesmo.

Me diga um povo que tenha suas diferenças culturais tratadas respeitosamente aqui. Não lembro de nenhum.

Japonês tem o pinto pequeno, português é burro, paraguaio é malandro, argentino é o capeta...

Essa raivinha deles com Portugal já encheu o saco faz muito tempo. Sempre o mesmo discurso de quem conhece o país (fora os malandros que vão pra lá com um curso feito nas coxas) pelo que ouviu falar na aula de história do colegial.

ÓBVIO que a xenofobia está maior na Europa, até pela situação complicada de alguns países.

Meus familiares estiveram em Portugal não faz muito tempo e reclamaram de certas coisas... MAAAAS... Apontaram a TV do Brasil, a do Bispo, que eles assistem lá e os deixam apavorados.

As tias iam cumprimentá-las e só faltava CHORAR lembrando da péssima situação de violência que o Brasil está pelo que viam na TV. ;)

Por azar, aparecemos nas notícias deles também. Houve um assalto a banco em Lisboa.

Adivinha a nacionalidade dos assaltantes?

Leticia disse...

Opa!!! E turista brasileiro? Turista! Sei de vários casos recentes de turistas IMPORTUNANDO as pessoas pela Europa inteira. "Vem cá, você é brasileiro?" e já montam uma intimidade que não existe.

O que querem? Sem bem vistos? Daí quem paga o pato é sempre gente que não tem nada que ver com essa caipirice.

Miguel Andrade disse...

Letícia, e é isso! E é essas mesma gente que se chia por qualquer coisa que digam.

Já já vem copa do mundo aí. Vão convencer todos estes coitados de novo que é aquilo que faz o país ser respeitado lá fora e que é ai que devemos ser patriotas. PFFF

Leticia disse...

Nem me fale. Estou aguardando os perdigotos...

O cara chega, é mal recebido, reclama e recebe de volta um "OCÊ É UM GRINGO SEM SAL, NÃO CONHECE NOSSO JEITO, O BRASIL É ÚNICO, QUER VIR PRA CÁ PROCURE CONHECER ANTES, NÓS É ASSIM MESMO!

Aqui em SP (uma única vez), pedi sachê de adoçante pro café. A criatura teve a capacidade de me perguntar: "Quantos?".

Imagina em lugares que só conhecem aquele pote de vidro grosso? Não quero nem ver...

Miguel Andrade disse...

Letícia, credo, agora que vi que meu comentário tava cheio de errinhos. hahaha Sorry!

Tem o brazuqinha que também se derrete pro turista gringo como se fossem pessoas iluminadas.

Já fiquei horas esperando pra ser atendido num café enquanto 3 atendentes tentavam entender o inglês do cara em meio a muitos "Hihihihih!".

Daniel Tavernaro disse...

Adooooro fazer cara de blasè para gringos. Cara de "tô nem ai de onde você veio ou se está me entendendo".


Isso é sinal de ser "da ralé"?

Miguel Andrade disse...

Daniel, total. Gentileza não nos custa nada.

Refer disse...

Esse comentário (do Daniel) é exemplar — serviria como um exemplo bem acabado de comportamento para o meu comentário anterior... é esse o estranhamento em relação ao estrangeiro e a nós mesmos, ao qual me referi,resultado da herança do isolamento cultural que tem vitimado gerações seguidas.

No tempo dos milicos, para citar um período emblemático e nem tão distante assim, o processo de isolamento foi uma coisa BRUTAL: éramos proibidos de sair do país, simplesmente; para obter o visto de saída para o exterior, cada pessoa havia de depositar no BB (ou no BC, não me lembro bem) uma pequena fortuna, que somente podia ser resgatada um ano depois!

Nada de fora chegava aqui legalmente, a importação era proibida, sem mais nem menos. Isso entre os anos 60 e 70, quando o mundo lá fora se transformava a mil por hora. Incrível como nos esquecemos desses abusos.

Assim, o brasileiro em contato com o estrangeiro ou se deslumbra(va) subserviente ou trata(va) com desdém.

Miguel Andrade disse...

Refer, "No tempo dos milicos"... tenho remoído umas coisas aqui a respeito. Já já sai post! :D

A herança daquele período foi muito mais nefasta do que se pensa. Enfim...

Olha, catei o finzinho desse período, sei um pouco do que você fala. Inclusive na pele.

Daniel Tavernaro disse...

Gente, gentileza é uma coisa. "Adular" é outra.

Educação é uma coisa... Ser sem-noção, outra. Admito que não sou de ficar jogando confete só por ser de fora; ou de contratar mulatas para dançar samba... Trato como iguais. Se não me entendem? Nada posso fazer. Se me olham com cara de lástima do terceiro mundo?... Também não posso fazer nada....

Mas, como alguém "mais novo", também vejo os mais velhos - e que se consideram mais "cabeça - carregados de um passado sempre presente. Talvez, se isolem na sua proclamada e conclamada auto-sabedoria para se fechar pras mudanças do mundo.

Bom, acho que até tenho um "que" de educação; mas também adoro olhar pros gringos do primeiro mundo com cara de "tá se achando o que?", rs. Rir da própria desgraça talvez seja uma coisa bem nossa, hahahahaha!!

Mas...admito que sinto muitos aqui contraditórios, sei lá. Inclusive eu. Somos assim; com o acréscimo de outro ponto de vista, mudamos o rumo do pensamento. Tento sempre manter a mesma dinâmica. Admito,também, que não entendi, agora, o que o brasileiro sente. Se é inveja ou se é raiva. Se é superior ou inferior. Se temos que botar mulatas dançando no aeroporto para sermos gentis, é disso que eles mais riem lá fora: da nossa "bobice-alegre". Meio que Poliana - uma coisa que não consigo, rs.

Miguel Andrade disse...

Daniel, ser gentil com todos, ainda mais com uma visita, não se trata de mudanças de tempo nem nada. Respeito é coisa que jamé sai de moda.

Não é pq todo mundo faz e isso é "mó barato" que vou esquecer o que mamãe me deu de mais precioso: Minha educação!

Daniel Tavernaro disse...

Miguel, coisa de brasileiro! Querer agradar, oferecer a casa, o lugar na cama... Sejamos mais naturais, mais normais. Como eu disse, educação é uma coisa, ser quase um bobo-da-corte é outra. Não sou sem-educação, só acho que não precisamos ser mais Brasil e menos gentil demais...Até porque gentileza em excesso é até feio e soa como falso. Até quando seremos trouxas, vestindo roupa colorida, frutas na cabeça e usando saltos gigantes? Ok, a história de Carmen é linda, mas o sucesso dela tem muito do deboche velado que somos lá fora. Justamente por sermos "bonzinhos demais", "gentis demais", querendo agradar demais.

Por favor, não vamos confundir as coisas.. Mas educação é uma coisa bem diferente. Pelo que aprendi, não precisamos passar por cima de algumas coisas pessoas para "fingir" ser educado.

Acho que essa educação de "aceitar as coisas sorrindo" é bem coisa de quem se sente menos e faz tudo pra agradar. Talvez, nem sabe que faz isso, afinal, a educação foi tão fechada que a "verdade" ou a "análise" nunca ocorre. Meio que democracia chinesa isso....

Daniel Tavernaro disse...

... "Só acho que precisamos ser MAIS brasileiros", e não "que não precisamos ser mais brasileiros". Errei e postei antes de reler. Desculpa ai!

Miguel Andrade disse...

Daniel, não estávamos falando de "agradar, oferecer a casa, o lugar na cama", mas sim do trato com pessoas que nos pedem informações na rua.

Leticia disse...

Na minha modesta opinião, acho que deveríamos ser menos brasileiros no quesito "relação com o mundo lá fora".

Miguel Andrade disse...

Letícia, simples assim!

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