segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Hitchcock explica na prática a importância da montagem

 Mestre da autopromoção (além do suspense) Alfred Hitchcock deu algumas boas entrevistas explicando um pouco de sua apurada técnica. Em 1964, época em que divulgava Marnie, apareceu no programa Telescopio da TV canadense.

Durante a conversa explicou sobre a importância da “corte” em seus filmes para alcançar o envolvimento da plateia. Ele chamava de pura cinematografia e produziu um filminho para demonstrar como pode conseguir resultados diferentes sob a percepção do personagem alterando os trechos.
“Temos um close-up. Então mostramos o que ele vê.”
“Vamos supor que ele viu uma mulher segurando um bebê no colo.”
“Agora cortamos para sua reação do que está vendo. E ele sorri. O que ele é como personagem? É um homem gentil. Ele é simpático.”

“Agora vamos tirar a parte do meio do filme, a mulher com o bebê, deixar as outras duas intactas.”
“Ele olha,...”
“... É uma garota de biquíni,...”
“...Ele sorri. O que ele é agora? Um velho safado!”

Por triste ironia, em 1964, com Marnie, Hitchcock se despedia de sua parceria com o editor George Tomasini, com quem trabalhava desde Janela Indiscreta (Rear Window, 1954). Tomaisini faleceu de um ataque cardíaco, com apenas 55 anos de idade.

É possível assistir à esta e outras duas explicações sobre edição ao  programa Telescopio no YouTube, sem legendas em português, clicando aqui. Completo e legendado em português é bônus do DVD de Um Barco E Nove Destinos (Lifeboat, 1944) pertencente à série Cinema Reserve da Fox. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Filho de Lugosi foi o melhor amiguinho dos monstros

LAMag
Quando Bela George Lugosi nasceu em 1938 seu pai Bela Lugosi já era um grande astro internacional graças a Dracula, dirigido por Tod Browning em 1931. Todos os filhos de celebridade possuem infâncias especiais, mas nenhum teve uma como o menino Lugosi.

Nos próximos anos ao seu nascimento o estúdio Universal retornaria as franquias com seus famosos monstros, produzindo sequencias e absurdos crossovers.  Se seus amigos iam às matines tomar sustos, o filho de Bela Lugosi conhecia todos os sombrios personagens cara a cara, nos bastidores dos filmes.
ICP
Seus primeiros passos foram entre as pernas do lendário Boris Karloff que estava vivendo pela última vez em um longa metragem a criatura em O Filho de Frankenstein (Son of Frankenstein, 1939 de Rowland V. Lee). Foi nessa época que nasceu Sarah, filha de Karloff, vista hoje em dia muitas vezes ao lado de Bela G. Lugosi em convenções de fãs.
Boys and Gouls
Ele sempre teve cachorros em casa, mas ainda assim, devia ser legal ficar perto de Lon Chaney Jr. caracterizado para O Lobisomem (The Wolf Man, 1942 de George Waggner). Pelo tamanho da criança, a foto pode ser também de Frankenstein Encontra o Lobisomem (Frankenstein Meets the Wolf Man, 1943 de Roy William Neill).
Claro que não poderia faltar foto com papai também pela última vez de forma oficial como Conde Drácula em Abbott e Costello às Voltas com Fantasmas (Bud Abbott Lou Costello Meet Frankenstein, 1948 de Charles Barton). Ele tinha uma mini capa de vampiro que costumava brincar com os amigos em casa, mas isto é óbvio.

Frame de um vídeo caseiro com pai e filho
Na escola ele temia ser motivo de piada por ter o mesmo nome do Drácula, então adotou o nome Billie G. Lugosi. Anos mais tarde, orgulhoso do legado de seu pai, assumiu Bela Lugosi, Jr., nome com que é conhecido até agora.

Mesmo tendo crescido dentro dos estúdios não quis ser ator. Seu pai lhe sugeria alguma profissão que lhe desse liberdade e atores estão sempre presos a agentes ou estúdios, então foi estudar direito, profissão que lhe seria pessoalmente útil.

Ele é conhecido no meio jurídico dos EUA pelo caso Lugosi Vs. Universal Pictures que se iniciou em 1966 e só terminou em 1979. Bela Lugosi tinha falecido há dez anos quando seu filho e a viúva resolveram entrar na justiça requerendo direitos sobre o uso de imagens do ator que o estúdio vinha comercializando através de produtos do Drácula.

             Action figure oficial de Dracula                  Terapeak
Não havia lei esclarecendo a quem pertencia o direito de uso de imagem quando a pessoa morre.clicando aqui.

Embora tenha falecido com muitas dificuldades econômicas, Bela Lugosi é um nome que gera milhões até hoje conforme você pode ler

É por isso que produtos oficiais da Universal sobre seus monstros clássicos, como action figures, não possuem as feições de Bela Lugosi, porque não podem. Drácula é a única das criaturas que não usam máscara, sua caracterização já vinha do que Lugosi fazia numa montagem teatral antes do filme de 1931.

Na Corte em 1979 eles ganharam, mas o estúdio recorreu e ganhou levando em conta o contrato que Bela Lugosi (então um desconhecido do grande público) havia assinado para estrelar Drácula no cinema. Apenas em 1986 a corte da Califórnia criou o direito a herança pelo uso de imagem até 70 anos após a morte da celebridade.

Em 2007 a lei passou a ser retroativa a todos os que morreram a partir de 1938. Então ainda há mais dez anos até a imagem de Bela Lugosi entrar em domínio público.
Universl Monster Army
A vida dedicada ao pai não se restringe a cuidar de direitos de imagem, coisa que faz pensando não apenas monetariamente, mas também em termos de preservação da memória.  Aos 78 anos (seu pai faleceu aos 73) Bela Lugosi, Jr. dificilmente  passa como anônimo por ser muito parecido ao ator reconhecido por gerações.

Conta com bom humor que às vezes lhe perguntam se é o neto de Bela Lugosi, aí ele conta que quando nasceu seu pai tinha 55 anos de idade. Também existe quem esqueça que astros de cinema envelhecem e morrem e pensam que ele é o próprio Bela Lugosi.

Veja também:
Vampiro milionário: Comércio post mortem de Bela Lugosi
Sara Karloff, a cara do papai
Drácula nas (nem tanto) boas lojas do ramo
Nova edição de Drácula usa Lugosi na capa
Palavrão da discórdia

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O melhor do Drácula de Argento

Derrapada de diretor favorito é assim mesmo, a gente não gosta nem de falar muito. Para o Drácula que o Dario Argento cometeu em 2012 dei a desculpa de não ter assistido em 3D, não dava pra avaliar direito.

Dói lembrar dele até hoje, mas... O show não pode parar. Você sabe! O blog My New PlaidPants resumiu lindamente em capturas e gifs a melhor parte do filme.

 Claro, sem esquecer da nudez masculina não frontal que também tem. E não é de se jogar fora.

Enfim, Argento não filmou mais desde então, mas está em pré-produção de The Sandman, projeto que contará com o músico Iggy Pop no papel título. Desejo francamente melhoras.

Veja também:
Giallo de Argento e os reféns da ansiedade

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Avesso da cena: Minutos finais de Profissão: Reporter

Os sete minutos que entraram para a história. A penúltima cena de Profissão: Repórter (Professione: repórter, 1975 de Michelangelo Antonioni) intrigou cinéfilos e estudiosos por décadas.

Não só um longo plano sequencia contendo clímax da história, mas submete a câmera a malabarismos que chega a atravessar uma estreita grade da janela. Assista no player abaixo ou clicando aqui.

Ela sai do quarto pela janela dá uma volta de 180 gruas e volta a mostrar a janela, com o personagem de Jack Nicholson já morto na cama. Tudo sem perder foco ou ter a luz prejudicada.

Na faixa de comentários do DVD o ator diz que o diretor construiu todo o hotel pensando nesta sequência. Acredita-se que isto não seja verdade, segundo informações obtidas através de fotos e registros das filmagens.
Apenas as barras foram afastadas com o auxílio de dobradiças, dando espaço para a câmera que seria captada por um gancho. Antonioni escolheu esta locação porque antes havia existido ali uma igreja e sua janela dava para uma arena de touradas.

A sequencia só pode ser filmada ao entardecer, entre 17 e 19h30 horas, para que não sofresse muita diferença entre a iluminação natural exterior e interior do quarto. Com a ventania da atmosfera local ainda surgiu a dificuldade de não balançar a câmera, presa a uma estrutura, conforme na foto abaixo.
BFI
Antonioni afastado numa van assistindo tudo por monitores e coordenando com microfone os técnicos e atores envolvidos na tomada. Hoje parece até simples, mas com a tecnologia da época foi uma conquista no mínimo fabulosa.

Claro que tudo foi absorvido pela cultura pop e gerou algumas tentativas de reprodução. Bom exemplo pode ser visto no trailer de Sexta-Feira 13 Parte 6: Jason Vive (Jason Lives: Friday the 13th Part VI , 1986 de Tom McLoughlin) que você assiste no player abaixo.
Pena que tem um corte quando o caixão se levanta. O resultado foi tão bom que imagens do trailer (que embora seja sobre o retorno do Jason após ele ter morrido dois filmes atrás não o mostra) que trechos foram aproveitados num flashback da parte oito da cine série.

Veja também:
Avesso da cena: O Iluminado em movimento
Avesso da cena: Plano sequencia de 007 contra Spectre
Avesso da cena: Na banheira com Freddy Krueger

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Kevin Bacon às voltas com a janela indiscreta

 A obsessão atual parece ser levar aos palcos histórias que já haviam rendido filmes de grande sucesso. Kevin Bacon estrelou na Broadway esta versão de Janela Indiscreta (conto curto de Cornell Woolrich) com a certeza de contar na plateia com fãs curiosos de Alfred Hitchcock.

Já a crítica parece não ter se empolgado muito e a montagem ficou pouquíssimo tempo em cartaz. A Variety chegou a dizer que os cenários brilhavam muito mais do que qualquer outra coisa ali.

Mais elogiado, o telefilme Janela Indiscreta (Rear Window, 1998 de Jeff Bleckner) adaptava a mesma história para o final do século passado. Estrelado pelo Superman Christopher Reeve (eu também foi produtor) e Daryl Hannah rendeu ao ator indicação ao Emmy e Globo de Ouro.

Voltando a Kevin Bacon, ele esteve envolvido indiretamente com “Rear Window” através de O Homem Sem Sombra (Hollow Man, 2000 de Paul Verhoeven). Seu personagem alimenta o fetiche de observar a vizinha o apartamento em frente.
As semelhanças com o filme de 1954 não é a toa. O diretor Verhoeven disse na faixa de comentários que acompanha o DVD que ele e o cenógrafo estudaram a obra em questão de Hitchcok inclusive para conseguir a mesma distância entre as janelas.

Veja também:

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Planeta Terror "restaurado"! Livre dos arranhões

 Edição gringa dupla de Planeta Terror (Planet Terror, 2007 de Robert Rodriguez) em blu-ray traz como bônus o filme limpo, sem as marcas de película danificada. As imagens comparativas são do site DVDBeaver.

O filme que fazia parte do projeto Grindhouse (junto a Death Proof de Quentin Tarantino), prometia dar ao público atual a experiência de uma sessão Grindhouse. Propositadamente era cheio de filtros imitando rabiscos e marcas, além de rolos faltantes.

Segundo o DVDBeaver, esta apenas os arranhões e marcas foram limpos, o filme continua o mesmo, inclusive com as sequencias faltando. De brincadeirinha, é como se fosse uma cópia recém-encontrada e restaurada direto dos negativos originais.

Não é de se estranhar que muita gente vá celebrar essa versão limpa. É possível inclusive encontrar pessoas em fóruns de internet interessadas em saber se tiraram o granulado para adquirir o BD... Verdade!

Sabe aquela gente que reclamam se aparecem barras pretas, se o filme é em preto e branco, mono ou se não tem a faixa de áudio dublada da Sessão da Tarde? Pois é! Elas também reclamam do granulado típico da película, aparente em qualquer transferência do filme para resolução alta.

Não adianta explicar que isso é normal, faz parte até do charme do cinema. Qualquer coisa que não seja como novela das oito ou filme de super herói (limpo, iluminado, com cores berrantes, etc) elas rejeitam.

E sem dúvida este foi um dos motivos que fizeram Grindhouse flopar nos cinemas. Dividiram os filmes e os lançaram separadamente e ainda assim poucos entenderam a "piada".

A minha experiência quando fui ver Planeta Terror foi das coisas mais engraçadas me aconteceram num cinema. Acho que já contei aqui antes, mas não custa repetir.
Antes de compramos os ingressos a bilheteira muito séria nos alertou que a cópia que eles receberam estava muito danificada, “pessoal está reclamando bastante”.  Então ela estava nos avisando para que decidamos se queríamos ou não ainda ver o filme todo estragado.


... Oi? Milhões em marketing pra explicar o projeto foram pra onde?

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Jorge Amado e as adaptações de sua obra

Movie-Trailer.UK
 Jorge Amado não costumava ter problemas com as adaptações de suas obras. Muito pelo contrário, acreditava que elas eram essências para a popularização de seus textos num país como o nosso, além de renderem um bom dinheiro.

Em entrevista a Antônio Roberto Espinosa em 1981 (pertencente ao livro da série Literatura Comentada da Abril Educação) assumiu orgulhoso que devia sua casa na Bahia ao imperialismo norte americano. Ele comprou o terreno em 1961 e terminou a construção três anos depois com os direitos de Gabriela que vendeu para o estúdio Metro Goldwyn Mayer (MGM).

“Até hoje, felizmente, o filme não foi feito”, completou aliviado. Seu romance de 1958 só seria adaptado para os cinemas pela MGM em 1983 tendo a direção do brasileiro Bruno Barreto, mesmo nome por trás do super sucesso Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976).
hicksflicks
Dona Flor foi adaptado pelos americanos no ano anterior (1982), versão que o autor dizia jamais ter assistido. Sob o título de Meu Adorável Fantasma (Kiss Me Goodbye de Robert Mulligan), o filme despreza toda picardia da obra original e se tronou numa doce comédia romântica estrelada por Sally Field.

Perguntado na mesma entrevista se os romances perdiam ao serem adaptados para cinema, TV e teatro Jorge Amado foi enfático: “Vale a pena perder”. Dava como exemplo o que aconteceu com Gabriela transformado em telenovela pela Globo em 1975, e em 1961 pela TV Tupi com menor exito.
“Talvez tenha sido o romance brasileiro mais vendido até hoje. Quando foi adaptado pra televisão, tinha vendido 600 mil exemplares no Brasil. A novela fez a Editora Record vender mais 80 mil, como foi vista por 25 milhões de pessoas. E depois ela foi reprisada!”, comemorava . Todas as perdas são insignificantes perto do volume de pessoas que o texto indiretamente acaba alcançando.

 “São pessoas que receberam certas ideias colocadas no romance; essas ideias atingiram uma massa muito maior, inclusive muitas pessoas analfabetas, outras semiletradas, e também aquelas que não tinham dinheiro pra comprar o livro...”. Gabriela seria ainda adaptada na televisão uma terceira vez em 2012.

Com as versões televisivas é ainda comum que surjam edições populares com as capas referentes a elas. Isso além de subprodutos como trilhas sonoras, álbuns de figurinhas e até livros de receitas alusivos aos personagens criados por ele.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Michelle Pfeiffer “falando” em português para Lux Luxo. Bizarro!

As propagandas de Lux Luxo são tradicionais em usar estrelas de cinema em suas propagandas desde a década de 30, quando o sabonete ainda se chamava Lever.  Sob o slogan “nove entre dez estrelas usam Lux” incontáveis atrizes internacionais confessavam sua preferência na hora do banho.

Belíssima, Michelle Pfeiffer viu que chegou lá quando passou a estrelar as campanhas no começo da década de 80. Mas como fica o depoimento já que ela não fala português? Assista no player abaixo (ou clicando aqui).
Dublaram na nossa língua com um pavoroso sotaque norte americano!!!! Hahaha! Procurei em outros idiomas (como no Peru) e nada, está dublada com a voz regional normal! Só aqui aconteceu.

Numa peça bem mais antiga, da década de 70, também vemos a Brigitte Bardott falando em português com sotaque francês. Era hábito! Pfeiffer não foi a primeira, mas foi uma das últimas.
A propaganda dela, famosa internacionalmente depois de Scarface (1983 de Brian De Palma), foi veiculada no Brasil em 1984, mas havia sido exibida nos outros países dois anos antes. A partir de 1985 atrizes brasileiras,começando por Vera Fisher, passaram a encabeçar as campanhas da marca.

Em 1989 foi a vez da nossa forra! As musas Debora Bloch, Malu Mader, Maitê Proença e Sonia Braga todas dubladas em inglês correram as TVs em países de língua inglesa. Assista abaixo!
O anúncio reaproveitou o material das campanhas delas de 1988. Perceba que tomaram o cuidado de não colocar as vozes em sincronia com suas bocas, mas soam bem parecidas com as originais..

Veja também:
Diana Rigg usa Lux Luxo
”Be Lux Lovely” says Joan Crawford 
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