sexta-feira, 30 de maio de 2014

Diretor neurótico, atrizes novatas


Assistido hoje, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977 de Woody Allen) envelheceu e mal. Ele foi o grande vitorioso no Oscar daquele ano, levando quatro estatuetas, incluindo roteiro, atriz, direção e filme.

Uma incrível façanha conquistada por pouquíssimos filmes. Das indicações que recebeu só perdeu a de ator, que, aliás, foi a primeira e última vez que Woody Allen teve  nomeação à categoria.

E exatamente esse sucesso todo que o desgastou tanto, deixando suas piadas surradas, repetidas à exaustão de lá pra cá. A do ato de amor com a pessoa que você mais gosta, a espirrada na cocaína dos outros...

Tudo manjado! Humor tão manjado quanto aqueles terríveis figurinos masculinizados que a Dianne Keaton usa até agora.

Curiosa a presença em papéis ínfimos de pessoas que se tornariam posteriormente muito famosas. Jeff “A Mosca” Goldblum não era novato, mas ainda um desconhecido quando fez uma quase figuração.

Na rua, respondendo sobre o segredo de seu relacionamento aparece Shelley Hack. Foi a estreia da modelo no cinema.

 Alguns anos depois ficaria internacionalmente conhecida integrando o trio principal na série As Panteras (Charlie’s Angels) apenas por uma temporada. Ela entrou no lugar de Kate Jackson, a Sabrina, ficando parceira da Jaclyn Smith e Cheryl Ladd.

Outra que estreou em Annie Hall foi Sigourney Weaver. Aparece no final da fita como a esguia nova namorada de Woody Allen na porta do cinema.

É um caso de gente que começou entrando muda e saindo calada. Ao longe mal da pra reconhecê-la se não fosse indicações como o IMDB.

Por ironia, Shelley Hack tem falas nesse inicio, mas iria muito menos longe como atriz. Já Sigourney Weaver apareceu como mera piada visual (pela altura), mas ainda é conhecida do grande público.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Flash Gordon 80's em quadrinhos

 Presta'enção ao detalhe, patéticos terráqueos! "Os olhos! Os olhos!!! O que há com olhos dele?"


DI-VI-NO! E de se pensar que esse homem já desencapeteou a menina Regan...

O dono deste blog aqui escaneou e graciosamente disponibilizou as versões novela e quadrinhos de Flash Gordon (1980 de Mike Hodges). Aquela amada encarnação do herói extravagante ao som do Queen.

Está tudo em inglês, mas como um mimo da produção (tão desastrosa quando foi lançada) está valendo. Imagina o encalhe desse material na época? Hoje é uma preciosidade.

Suspeito que quem abriu a caixa de pandora 30’s/40’s naquele tempo foi Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977 de George Lucas) que muito bebia na fonte dos seriados de cinema antigos. Flash Gordon foi uma adaptação natural em 1980.

Sem Star Wars provavelmente nem Superman (1978 De Richard Donner) teria sido como foi. No embalo Indiana Jones e tantos outros vieram à luz, todos com cheiro retrô de 50 anos atrás.

Aliás, Batman pelo Tim Burton 1989 também é dessa onda. E talvez seja o que falte aos atuais e ininterruptos filmes de heróis: a veia imaginativa descaradamente pulp.

Veja também:
Um fantástico filme serial novo
Numa galáxia nem tão distante assim

terça-feira, 27 de maio de 2014

Fazedor de monstros: O legado de Roy Ashton


O livro “Greasepaint and Gore: The Hammer Monsters of Roy Ashton” traz muito material sobre o trabalho do maquiador principal da Hammer Films. Abaixo esboços relativos ao envelhecimento de Ursula Andress em A Deusa da Cidade Perdida (She, 1965 de Robert Day).


Tem um quê de sádico em enfear Ursula Andress no auge da beleza física, uma verdadeira deusa. Também tinha chegado ao cume da popularidade pós O Satânico Dr. No . (Dr. No, 1962 de Terence Young).

Embora, como nota-se nas imagens acima, Roy Ashton projetou com Andress na cabeça, a maquiagem no filme acabou aplicada numa dublê. “Estragar a minha cútis como isso? Nem morta! “, mas provavelmente foi por ser um processo demorado.

O maquiador (natural da Austrália) estava na Hammer já para A Maldição de Frankenstein (Curse of Frankenstein, 1957 de Terence Fisher), o primeiro terror do estúdio. Depois de um tempo como assistente passou a ser diretor do departamento de maquiagem.

Muito criativo assinou praticamente todos os monstros célebres do auge da Hammer. Conforme consta no livro, um dos mais trabalhosos foi transformar Oliver Reed em Maldição do Lobisomem (The Curse of the Werewolf, 1961 Terence Fisher).

Até pelo estilo rápido da Hammer produzir seus filmes, nem sempre as maquiagens tinham efeito pleno. As vezes é inegável a aparência papel maché, como a criatura de A Serpente (The Reptile, 1966 de John Gilling).

Ao mesmo tempo, literalmente, Roy Ashton cuidava da aparência dos mortos-vivos e máscaras rupestres dos sacerdotes de Epidemia de Zumbis (The Plague of the Zombies). Ambos possuem ainda o mesmo diretor, produtor e boa parte dos cenários, embora sejam obras bem acabadas, sem demonstrar o baixo orçamento.

Estudava a anatomia dos atores antes de criar, preocupado ainda com o conforto dos mesmos. Foi assim que chegou a um zíper nos trajes de Christopher Lee em A Maldição da Múmia (The Curse of the Mummy's Tomb, 1964 de Michael Carreras), ao invés de apenas enrola-lo em bandagens.

No final de 1965 ele deixou de ser exclusivo da Hammer, tornando-se freelancer para ela e a concorrente Amicus, assim como também fez o elenco.Assim, continuou maquiando colegas como Peter Cushing por muitos anos.

As páginas do livro são um oferecimento Mondo Exploito. A última imagem Midnight Showing

Veja também:
MUITO mais sobre Hammer 
Todas as caras do monstro de Frankenstein na Hammer
Jack Pierce, o verdadeiro pai dos monstros

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sorte ou revés? 70 anos de Banco Imobiliário


Este ano faz exatos 70 anos que a Estrela passou a distribuir o Banco Imobiliário no Brasil. O jogo que nos ensinou que era legal deixar nossos amiguinhos irem à bancarrota!

Edição brasileira anos 60 com Cruzeiros
Ainda nos dava falsa noção de quanto valiam certas regiões do Rio de Janeiro e São Paulo. Os cartões rosados, por exemplo, permitiam prejuízo para quem construísse no Leblon.

Em 1944, quando o jogo de tabuleiro saiu aqui, ainda era uma grande novidade no mundo todo. Tinha sido lançado há nove anos nos EUA com o nome Monopoly .

A criação dele é creditada a Charles B. Darrow, um desempregado que teria inventado o jogo para entreter seus filhos. No começo da década de 30 Darrow apresentou sua ideia à fábrica Parker Brothers (atualmente Hasbro) que imediatamente torceu o nariz.

A empresa enumerou 52 pontos vulneráveis, como a complexidade das regras, a duração muito longa de cada jogada e a falta de um objetivo claro ("falhas" que existem até agora). Darrow, teimoso, acreditou na ideia e lançou ele mesmo de forma independente.

Agora distribuído aqui também com o nome original
Vendeu nada menos do que 5000 cópias em pouquíssimos meses, isso em pela Grande Depressão, período negro da economia dos EUA. O cenário caótico do país ajuda de certa forma a entender o sucesso instantâneo do jogo que permitia manusear e ganhar grandes quantias de dinheiro (mesmo que de mentirinha), quando ele era escasso.

Foi o suficiente para a Parker Brothers arregalar os olhos e mudar de ideia, firmando um contrato com
Charles B. Darrow. Em 1935 saía oficialmente o Monopoly, ou Banco Imobiliário, conforme passaria a ser conhecido neste lado do Equador.

Esta é a história oficial, difundida pela empresa até nas embalagens do brinquedo na década de 70. Historiadores apontam que a mecânica do jogo é do começo do século XX, pertencente a uma mulher que criou um jeito de explicar o pagamento de taxas de forma divertida.

Edição atual da Estrela com cartão de crédito
Quando aportou no Brasil a Segunda Grande Guerra estava prestes a acabar, o cinema de Hollywood se rendia ao noir com filmes como Laura (de Otto Preminger) e Pacto de Sangue (Double Indemnity de Billy Wilder), sem TV as pessoas se reuniam para ouvir rádio. O Brasil era governado por Getúlio Vargas e vivia o Estado Novo, governado ditatorial. 

Por muitos anos o Banco Imobiliário em português do Brasil manteve-se idêntico (exceto ajustes de designe), surgindo apenas uma versão Júnior, menor e de valor mais baixo. Ao contrário de seu país de origem, onde são tradicionalmente distribuídas edições variadas.

Hoje a Brinquedos Estrela também vende Banco Imobiliário com diversos temas, inclusive com a adição de pagamento a cartão, além da versão digital. Ao mesmo tempo, curiosamente, a norte-americana Hasbro em parceria com empresa local o comercializa nas lojas brasileiras sob o nome original Monopoly.

As duas primeira imagens são oriundas daqui e daqui.

Veja também:
Jogo da Glória: Para criancinhas ambiciosas 
Fabuloso jogo da Hammer Films
Vídeo Mania, o jogo do VHS

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Patsy Stone em seus tempos de Bond Girl


Raro lobby card alemão de 007 - A Serviço Secreto de Sua Majestade (On Her Majesty's Secret Service, 1969 de Peter R. Hunt) onde a atriz Joanna Lumley tem destaque. Ela é aquela de preto sentada no chão ao centro.

No filme as coisas são diferentes. Ela é só mais uma entre as beldades à disposição do James Bond, seu personagem é identificado apenas como “English Girl”.

Quase entra muda e sai calada, mas consegue um bom close. Bom o suficiente pra qualquer um que tenha assistido a Absolutely Fabulous grite: “Ah, lá a Patsy!!!” .

Estava com 23 anos, topando de tudo, inclusive um pequeno papel em O Abominável Dr. Phibes (The Abominable Dr. Phibes, 1971 de Robert Fuest). Infelizmente a cena não entrou no corte final e ficamos sem ter Joanna Lumley num filme do Vincent Price.

Nesse período picou cartão em totens da cultura pop britânica, como os estúdios Hammer e Amicus. Escapou de Doctor Who até a década de 90, quando num especial de televisão humorístico se tornou a única mulher a interpretar o Doctor.

Ela só ficaria muito conhecida na Inglaterra em 1976, ao participar da nova versão do seriado televisivo Os Vingadores (The Avengers). Por coincidência, mesmo programa que revelou Diana Rigg nos anos 60, aquela que faz James Bond finalmente mudar de estado civil em 007 - A Serviço Secreto de Sua Majestade.

A última aparição da atriz no cinema foi como a pouco confiável tia Emma em O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013 de Martin Scorsese). É seu maior papel numa produção hollywoodiana.

A primeira imagem é um oferecimento Cinema.de, a última Star Pulse

Veja também:
AbFab, O Filme: Talvez sim, talvez não
Patsy no museu de cera
Joanna! Joanna!
Joanna Lumley a Certinha do La Dolce

4 vezes George Lazenby: Ou como desperdiçar a grande chance de sua vida em quatro atos

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O vento não levou: Tara renasce!


O historiador Peter Bonner , pesquisador da obra de Margaret Mitchell, encontrou nada menos do que Tara, a suntuosa residência de Scarlet do filme ...E O Vento Levou (Gone with the Wind, 1939 de Victor Fleming). Na verdade encontrou um monte de tábuas que seriam o cenário desmontado.

"Tara" atualmente
Agora ele pretende remontar tudo e a abrir a iconográfica mansão dos O’Hara à visitação pública. O projeto Saving Tara conta com um site e uma página no Facebook, onde fãs acompanham todo o trabalhoso processo de restauro. Como uma peça tão lendária do cinema hollywoodiano chegou a este ponto de abandono após 75 anos?

Segundo informações do site, os cenários continuaram de pé muito tempo após as filmagens. Em 1957 a Desilu Productions comprou a Selznick Studios (Que na época fazia parte da RKO). Em 1959 (20 anos após o filme estrear) Desi Arnaz e Lucille Ball (donos da Desilu) encontraram nos terrenos do estúdio adquirido a fachada de dois andares normalmente como foi vista no cinema e resolveram manter lá.

"Tara" na década de 50
Assim, há algumas registros de turistas daquela época que se encantavam com a imaginária residência dos O’Hara. Isso até o começo da década de 60, quando a Desilu Productions se desfez junto ao casamento de seus proprietários.

O que seria Tara foi desmontado e enviado da Califórnia a um celeiro na Geórgia. Por ironia do destino, a alguns quilômetros da antiga plantação com um casarão em estilo revival Grego que inspirou sua confecção.

Logo não faltaram ideias sobre como exibir a fachada Tara para as pessoas de todas as nacionalidades que buscarem um vislumbre de suas colunas. Mas cada grande ideia caiu sob o peso do tempo, logística e derrapagens de custos, até que um dia seus pretendentes já não estavam mais interessados em colocá-la novamente em uma colina para que todos possam ver.

Imagens retiradas do site Saving Tara. Post inspirado numa postagem de Raoni Garcia

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Revistas internacionais nas novelas brasileiras

Figurantes da academia do Ubirajara (Ary Fontoura) colocando a leitura. A cena da novela Dancin’Days foi ao ar no capítulo 38, exibido ontem no canal Viva.

É a revista True Romance, uma rara versão 70’s dela. Acidentalmente a novela registrou um dos mais lendários pornstaches da propaganda norte-americana.

Esse anúncio de cigarro Winston é considerado como sendo de 1977, um ano antes de a novela estrear. Muito provavelmente é coisa do acervo da emissora, só pra moças avulsas terem o que fazer em cena.

Uma coisa a se notar é que menina Marisa (Gloria Pires) também aparece olhando pra outra revista importada, enquanto Julia (Sonia Braga) pra variar fuma. Se fosse uma produção recente todas estariam lendo qualquer publicação da Editora Globo, mais provavelmente a Marie Claire, e Julia arrumaria outra coisa pra fazer, já que não pega mais bem mocinha fumar.

Mostrar personagens lendo revistas da Editora Globo se tornaria comum nas novelas a partir da segunda metade da década de 80, após a Rio Gráfica Editora (RGE) das Organizações Globo comprar a tradicional Livraria Globo. Fundada em 1883, a editora gaúcha possuía coincidentemente o mesmo nome do grupo de mídia, sem ter até 1986 qualquer relação com ele.

A RGE, vigente na época em que Dancin’ Days foi produzida (1978), se dedicava a publicar histórias em quadrinhos, não revistas para adultoas. Seria estranho todo mundo lendo gibi do Recruta Zero.

Veja também:
Valia tudo nos dias dançantes
Fazendo sala 70's

Dancin’ Days: A atriz que não estava lá
Sonia Braga Vs. Joan Crawford
Oh, que maravilha de vedete!
Ouça a versão italiana de Dancin’ Days (sem As Frenéticas!)

terça-feira, 20 de maio de 2014

Evil Dead menos evil: As restaurações


 Estava só proseando com o Alan Oliveira sobre a quão boa parte da graça de Evil Dead (1981 de Sam Raimi) vir justamente do estilo caseiro, quando ele me contou de que muito disso foi “arrumado” para o Blu-ray. Fã extremo, me enviou um tratado sobre todas as versões que já apareceram no mercado.

Em 1998 o próprio Sam Raimi promoveu alguns ajustes para a distribuição em Lasedisc que depois foi reaproveitado no DVD. Basicamente todos técnicos, para dar uma arrumada no transfer em 16mm, bitola semi profissional utilizada nas filmagens.

Alan comenta ainda a falta de um plano rápido com uns raios (aos 17’10’’) e a adição de um zoom digital numa sequência. A referência é o do VHS, distribuído no Brasil em 1986 pela Look Vídeo, que tinha como base a versão exibida nos cinema dos EUA em 1983.

Mas as alterações mais significativas são mesmo na versão recente em Blu-Ray. São mais de 25 cenas “consertadas”, mas o Alan gentilmente selecionou apenas algumas com suas referidas imagens comparativas.

1) Robert Tapert (um dos produtores) apagado digitalmente na cena da ponte;


2) Reflexo do cinegrafista (aparentemente Sam Raimi) no vidro foi retirado;


3) A inversão do rosto de Linda da esquerda para a direita, pra dar continuidade com a cena do lápis;

4) Fios de cabelinho presos na película velha de 16mm digitalmente apagados;

Ainda, claro, ajustes de matiz, reenquadramento (o que provavelmente causou o item 4 acima) e de estabilização de câmera, por conta dos diversos trancos e erros de movimentos que Sam e a equipe tinham dentro da pequena cabana. Todos provavelmente para deixar o filme mais discreto na alta definição.

E eu confesso que até o mais gritante deles, aquele do produtor aparecendo na tomada da ponte, sempre me passou despercebido, mesmo eu tendo assistido Evil Dead dezenas de vezes. Em contrapartida, todas as mudanças dão motivos para que não nos desfaçamos das edições em mídias que vão ficando obsoletas.

Veja também:
Orgulho nacional: Nosso Suspiria!
A incrível capa que se multiplicou
Spielberg liderou reclamações do SAC
Complexo de vira-lata justificado na TV
Vertigo: Qual edição comprar?

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O Bebê de Rosemary de 2014...

 Não sou afeito a posts redundantes, escrever sobre o óbvio, mas algumas linhas sobre a versão 2014 de O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby) são irresistíveis. Até por ser uma refilmagem anunciada faz tanto tempo, sendo que escrevi sobre ela pela primeira vez em 2008.

O desastre era eminente, mas nem o tinhoso imaginaria a montanha de lixo que a TV produziria. Lembrando que não sou purista, entendo que refilmagens serão sempre refilmagens, sem macular o original.

Sem falar que um filme não faz sucesso apenas por si só. Muito da sua aura pertence ao momento em que foi lançado nos cinemas, portanto, jamais conseguirá ser refeito em sua totalidade.

Para quem se pergunta por que então tantos remakes, reimaginações e similares abundam hoje em dia, entenda que há altos custos em divulgação. Lidar com um material já conhecido e celebrado, é por tanto, meio caminho andando para estimular interesse do público.

O Bebê de Rosemary em 2014 começa errando porque reconta um livro que já havia sido adaptado com boa fidelidade em 1968 por Roman Polanski. A minesérie em dois episódios poderia ser salva com a justificativa de fidelidade ao livro, mas vai ao caminho contrário.

Ao invés de Nova York da contracultura 60’s, transportaram a ação para Paris! Ao invés do casal de velhinhos vizinhos cheirando a naftalina (iguais aos que existem aos montes), entra um casal burguês parisiense com dinheiro infinito, e aí é ladeira abaixo.

Trocaram o assombroso edifício Dakota por um prédio dominado por bruxos ricos o que logo nos remete a malfadada série 666 Park Avenue (2012) que já bebia da fonte de O Bebê de Rosemary. Toda a dúvida (que impinge assustador realismo) sobre a existência da magia negra é dissipada por bruxos poderosos bem sucedidos financeiramente.

Mas tudo isso vá lá, se o roteiro em si não fosse terrivelmente improvável, mesmo se ignorássemos o filme já feito. Rosemary (Zoe Saldana) encontra no apartamento uma foto do antigo casal que morava ali e corre para uma delegacia denunciar porque eles têm “Algo diferente no olhar”. Oi?

Aí já sabe que a moça se matou pulando do prédio. Mostra a foto para uma amiga leiga que imediatamente reconhece o símbolo de uma igreja tatuada no braço de um deles.

Indo a essa igreja contam-lhe tudo sobre o passado do edifício e os sacrifícios que eram feitos ali. Assim, tudo claro e de mão beijada, sem espaço algum a qualquer tipo de suspeita ou investigação!

Ao invés de mouse com gosto estranho (de giz) ela toma uma sopa da fertilidade preparada pela vizinha, mais na cara do que gilete que é bruxa? Numa bela tarde Rosemary está passando creminhos pós-banho e vê pela janela os vizinhos fazendo uma espécie de ritual, todos de negro.

Pra finalizar, são tantos desacertos, mas tantos desacertos que eles usam um gato preto como aliado dos malvados. Como se os bichanos dessa cor já não sofressem estigmas suficientes nos últimos séculos.

E se é necessário apontar algo positivo, ou curioso, pode-se dizer que a mudança de cenário para a França indiretamente englobou outro filme de Polanski, O Inquilino (Le locataire, 1976), a terceira parte da chamada Trilogia do Apartamento. Mas não espere nem uma gota do suspense causado pelo isolamento linguístico, claro.

Veja também:
Veja o que aconteceu ao Bebê de Rosemary...
Joan Crawford eliminada de O Bebê de Rosemary!!!

Vizinha de Rosemary condenada por tentativa de homicídio
A poderosa raiz de tannis

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Suingando no cinema

O velho truque das gravadoras: Fazer coletânea de músicas com outros artistas, no ritmo do momento. Jonah Jones Quartet e a Capitol Records levaram ao jazz os temas de filmes de maior sucesso em 1958.

Ouça a primeira faixa, Tammy, do filme A Flor do Pântano (Tammy and the Bachelor, 1957 de Joseph Pevney) como jazz no player abaixo ou clicando aqui. Originalmente a música é cantada por Debbie Reynolds.

Swingin 'At The Cinema deixa muito claro que são reinterpretações pelo quarteto encabeçado por Jonah Jones (assim como aquela mocinha de branco o é da Kim Novak), mas nem sempre foi assim. Tenho coleção de CDs com temas de filmes que seria muito honesto se tivessem dito na capa se tratar de cantoras de churrascaria.

A imagem é um oferecimento Neato Cool Ville

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Musicas para Bette Davis


Se havia uma coisa que Bette Davis detestava era que seus filmes tivessem trilha sonora. Por coincidência o auge da sua carreira coincide com a do grande compositor Max Steiner, enquanto ambos estavam contratados pela Warner.

Ela teria se preocupado com o trabalho dele precisamente em Vitória Amarga (Dark Victory, 1939 de Edmund Goulding). Conforme relembra o Se Entertainment, enquanto filmava a cena mais dramática de Dark Victory (a parte em que sabemos que ela vai lá em cima para seu fim trágico), Bette Davis parou e perguntou ao diretor, "Quem está musicando este filme? Max Steiner?" O diretor disse que achava que sim. "Bem", Bette declarou: "ou eu vou subir as escadas ou Max Steiner está subindo as escadas, mas nunca nós dois juntos".

Os grandes atores de Hollywood entendiam que uma boa marcação de música era parte tão importante de cada filme como a sua própria presença na tela, o que parecia muitas vezes como competição. Como sabemos, Max subiu as escadas junto, contra vontade de Bette, numa excelente e indireta parceria.

A atriz repetiria essa mesma história por décadas. Até por que, Vitória Amarga é seu desempenho mais pleno segundo a própria, injustamente ofuscado pelos grandes sucessos daquele ano, como ... E O Vento Levou (Gone with the Wind de Victor Fleming e outros).

Mas não havia problemas pessoais entre eles. Bette Davis o teria escolhido para compor a trilha sonora de Um Vida Roubada (A Stolen Life, 1946 de Curtis Bernhardt), único filme em que também foi produtora, o que deixa claro não haver problema pessoal entre eles.

 Ao todo, Bette Davis e Max Steiner estiveram juntos nos créditos de vinte e um filmes. Na lista estão incluídos alguns de seus maiores papéis, como Escravos do Desejo (Of Human Bondage, 1934 de John Cromwell) Jezebel (1938) e A Carta (The Letter, 1940, ambos de William Wyler).

Nascido na Áustria em 1888, o músico é considerado um dos maiores artistas a trabalhar em Hollywood. Ainda criança, apadrinhado por Richard Strauss, genialmente compôs sua primeira ópera, ao migrar para os EUA foi natural encontrar trabalho na Broadway.

As portas do cinema foram abertas com a chegada dos filmes sonoros, no começo da década de 30, iniciando uma carreira que perduraria até 1965. Foram centenas filmes de filmes que musicou, sendo muitos deles agora grandes clássicos.

É de sua autoria composições ou conduções antológicas como o Tema de Tara de E O Vento Levou... , Casablanca (1942 de Michael Curtiz) e King Kong (1933). Ele foi indicado ao Oscar 30 vezes saindo vitorioso em três cerimônias.

Em muitos casos Max Steiner foi derrotado, mas seu trabalho é hoje infinitamente mais lendário do que o vitorioso. Ou dá pra comparar a música de Casablanca com a de Alfred Newman para A Canção de Bernadette (The Song of Bernadette, 1943 de Henry King)?

Em A Estranha Passageira (Now, Voyager, 1942 de Irving Rapper) levou o prêmio da Academia e ainda despertou a atenção dos estúdios para uma forma de renda então mal aproveitada. Seu tema ganhou letra e o título "It Can't Be Wrong", tornando-se um grande sucesso de vendas.

Após a morte do colega em 1971, Bette Davis disse que "Max entendia mais sobre o drama do que qualquer um de nós".

A primeira imagem é um oferecimento Vinnieh, a segunda Bloomberg

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Vista-se como um gladiador


Subligaculum era essa vestimenta usada por quase todos na Roma e Grécia antigas. Para fazer o seu, é preciso nada mais do que um pano e seguir o gráfico abaixo.

Homens e mulheres talvez vestissem o antepassado das nossas cuecas e calcinhas, embora sejam apenas teorias de historiadores. O conhecimento dos costumes daquele tempo se baseia nas pinturas e estatuetas o que, obviamente, faz apenas supormos o que tinha por debaixo das túnicas ou togas.

Pelos registros, certeza mesmo é de que o subligaculum era usado sozinho para proteger as genitálias de trabalhadores e gladiadores romanos. Sendo mais associado aos heroicos gladiadores.

O item é bastante comum em filmes e séries peplum, ou "sandália e espada", com mínimos cuidados históricos. Até nas produções italianas da década de 50/60.

Pela segurança e mobilidade proporcionada, o subligaculum fazem mais sentido como figurino épico do que sungas em produções como 300 (2006 de Zack Snyder). Evidentemente não haviam máquinas de costura para a existência de roupas resistentes, como tangas de vestimento simples.

Segundo a fashionencyclopedia, o traje era muito parecido com o perizoma utilizado pelos etruscos, sociedade pré-romana que habitava a parte central da atual Itália. Os etruscos, por sua vez parecem ter adaptado a peça do que já existia entre os egípcios.

Em latim subligaculum de forma literal significa “instrumento para amarrar” (Subligo, amarrar, mais sufixo “culum”, para instrumento). É portanto, não só um antepassado das atuais roupas íntimas, mas dos biquínis que só se formam ao serem amarrados na cintura.

A primeira imagem é um oferecimento B-Movie Detective, a segunda Subiglacum

Veja também:

Supremacia pelpum

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Em Portugal não se pode ter Friends


 Rigorosos com os nomes que papais garbosos darão a seus pimpolhos, os portugueses possuem uma lista das nominações que podem ou não registrar os filhos. Raphael Scholl descolou esta lista pra gente.

Bizarrices, e estrangeirices, como nomes de personagens de TV são adicionados à lista e negados. Os que ficaram conhecidos no popular Friends, por exemplo.

Rachel ? Não! Ross? Não! Chandleir? Não! Joe? Não! Como alguém batizaria um filho com o nome de um personagem tão burro?
Que, aliás, tem como grafia correta Joey, assim como Chandler. Todos os nomes, mesmo não aceitos, são aportuguesados.

Monica claro que pode! Mas Mónica, com o grampinho da vovó, como convém além mar (Minha irmã se chama Mónica, por causa dos quadrinhos da Mônica).

 Existe uma Febe aceita lá, mas creio que não se trate da Phoebe. Juro que não pensei em procurar Princesa Princess Consuela Bananahammock...

Enquanto isso no Brasil... Tente procurar no Facebook por Chandler da Silva, Chandler Oliveira e similares, reparando sempre na faixa etária...

Veja também:
Nomes de filmes no Brasil e em Portugal
Posteres de Friends: arte e história

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Psicose antes de Norman Bates

Com se sabe, Hitchcock teria tido interesse em dirigir Psicose (Psycho, 1960) para provar que conseguiria fazer um filme barato e lucrativo como tantos que estavam surgindo na época. Para isso contou com a equipe do seu programa de TV Alfred Hitchcock Presents (1955–1962).

Mais tarde ele diria também que se sentiu motivado pelo crime que acontece no chuveiro. Foi tão bem
sucedido financeiramente (Psicose conquistou a segunda bilheteria do ano ficando atrás apenas de Ben-Hur de William Wyler) quanto artisticamente, alterando os rumos do cinema de horror.

Assistindo à série produzida pelo mestre, percebe-se que além da técnica outros elementos foram reutilizados ou melhor desenvolvidos no cinema. Principalmente no episódio E Assim Morreu Riabouchinska (And So Died Riabouchinska, 1956 de Robert Stevenson) que estranhamente nunca é citado como referência a Psicose.

O roteiro do episódio é baseado num conto de Ray Bradbury que já havia sido adaptado ao rádio na década de 40. O ponto em comum principal com Psicose é justo a investigação do detetive (Charles Bronson) chegar a um ventríloquo (Claude Rains) enlouquecido que comete um crime reproduzindo a voz da amada morta, ou seja, ao invés de um corpo empalhado tem uma boneca com as feições da finada.

Gregg: Riabouchinska e Sra. Bates
Os créditos do roteiro do filme são de Joseph Stefano, inspirado no livro de Robert Bloch, que por sua vez, contava sobre a história real escabrosa. Mas as comparações são inevitáveis, como se deixassem a ideia de Ray Bradbury mais realista ou refinada ao trocar o criminoso ventríloquo que se comunica com a boneca por um psicopata que se comunica com o cadáver da mãe.

Uma das coisas que chama muita atenção para a similaridade entre as duas obras é justamente a voz da boneca, a tal Riabouchinska. É a voz de Virginia Gregg, um dos três atores a interpretar (de forma não creditada) a senhora Norma Bates no filme de 1960!

 Virginia Gregg seguiu no papel nas mal afamadas sequências de Psicose de 1983 e 1986. No episódio em questão de Alfred Hitchcock Presents ela adicionou um sotaque russo, mas claro, basta abrir a boca da boneca de madeira que a gente logo diz: “Ah lá, a Senhora Bates!”.

Veja também:
O que faz Psicose genial até hoje
O que há na música favorita de Norman Bates?
Por onde anda a Senhora Bates?
Hitchcock preto no branco

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Nunca vi, mas já vi esse filme


Comentamos muito sobre o clichê que Carmen Miranda foi transformada em Hollywood, mas ou exclusividade dela. O cinema comercial norte-americano vive de ícones para facilitar a vida de produtores, publicidade e do público médio, que não quer surpresas.

Olha só quem eles reuniram num mesmo filme: O durão policial do futuro Peter Weller, a pantera safadinha Farrah Fawcett e a prosaica e maternal suburbana Lea Thompson. E assim, antes de assistir A Substituta (The Substitute Wife, 1994 de Peter Werner) já sabemos exatamente do que se trata.

Não confundir com atores limitados. Existem excelentes atores que convivem muito bem com essa postura de mercado e as vezes conseguem fazer coisas diferentes.

Era muito comum na "Era de Ouro de Hollywood", quando cada estúdio criava seu star system, mas a prática ainda existe. É como se não fossem atores, mas personagens que são reaproveitados em várias histórias.

Ou, desenhando, é como o Pernalonga que num episódio está ás voltas com o universo da ópera e no outro em 2050 tendo que lidar com marcianos. Hitchcok adorava dizer que invejava Disney, que ao ficar insatisfeito com um ator bastava passar a borracha...
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