segunda-feira, 31 de março de 2014

Grandes olhos e a vitória do kitsch


Da mais desgastante notoriedade à um ruidoso processo judicial, a artista plástica Margaret Keane saboreou toda a delícia de ser popular nos últimos 50 anos. Inclusive o quase esquecimento do seu nome.

Margaret Keane começou a pintar em 1950, mas viu suas telas ficarem extremamente conhecidas após o casamento em 1955 com Walter, um corretor de imóveis que largou a carreira para se dedicar a comercializar os trabalhos da esposa. Tudo o que podia ser estampado ganhou os trabalhos de Keane.

Sua marca é retratar crianças com olhos muito grandes, geralmente com expressões tristes. Seu auge foi atingido durante os anos 60 e 70, quando muitas casas no mundo todo, principalmente nos EUA, tinha uma reprodução de Margaret Keane decorando as paredes.

Nesta mesma época ao se separar do marido, enfrentou a primeira acusação de Walter, de que quem pintava na verdade era ele. Muito tímida, nunca se importou em aparecer como autora, assinando apenas o sobrenome “Keane”.

Em 1970 instigou o ex-marido a pintar publicamente o que, claro, ele recusou. A acusação se tornaria um milionário processo apenas em 1986, quando Margaret Keane leu as acusações de Walter a um jornal e resolveu tirar a história a limpo, uma vez por todas.

Perante o juiz, sua defesa novamente pediu para que ambos fizessem um quadro. Margaret executou a obra em pouco mais de 50 minutos, Walter alegou uma dor no ombro que o impossibilitava e claro, perdeu a ação.

Voltando à década de 70, a artista se mudou para o Havaí, se converteu a Testemunha de Jeová e seu estilo passou a ser mais leve. Com mais cores vibrantes e sem cara de tristeza, era notável a transformação de suas obras.

Além de crianças, Margaret Keane se notabilizou ao retratar (também de olhos grandes) várias celebridades como Kim Novak, Natalie Wood (imagens ao lado) e a família de Jerry Lewis. Duas de suas telas ainda aparecem decorando os sets de O Que Que Aconteceu com Baby Jane? (Whatever Happened to Baby Jane?, 1961 de Robert Aldrich), grande sucesso estrelado por Bette Davis e Joan Crawford.

Joan Crawford foi uma das celebridades a serem pintadas. A estrela aparece em frente à tela na foto que ilustra a capa da sua autobiografia “My Life” de 1972. 

Na década de 90 o trabalho de Margaret Keane ainda seria reverenciado pelo animador Craig McCracken através das Meninas Superpoderosas (The Powerpuff Girls). Além dos olhos grandes, claro, a professora na escolinha delas se chama Senhorita Keane.

O próximo trabalho de Tim Burton, a ser lançado agora em 2014, será Big Eyes, sobre a trajetória da artista. Burton se tornou notório fã da Margaret Keane ao pedir para ela um retrato da então amada Lisa Marie com Puppy, o cãozinho deles.

Sem o elenco costumeiro do diretor, o controverso casal principal será interpretado por Amy Adams e Christoph Waltz. Contará ainda com roteiro assinado pela dupla Scott Alexander e Larry Karaszewski, os mesmos de Ed Wood (1994), sua então única cinebiografia e seu melhor trabalho.

Se tudo correr bem, Margaret Keane terá novo levante entre o gosto popular, embora, de qualquer maneira, suas telas alcançam hoje valores similares a 200.000 dólares. Nada mal para o que já foi apenas piada entre os críticos de arte.

Algumas imagens são um oferecimento El País

Veja também:
A maldição das crianças que choram

Nos 80 só deu elas!
Nepotismo Burtoniano

2 comentários:

Marcelo Bonaldo disse...

Que ótima notícia! Tim Burton precisa mesmo se reinventar...o último dele que vi (Dark Shadows) me decepcionou um pouco, mas...sem a Helena no elenco???? duvideodó...

Miguel Andrade disse...

Marcelo, pelo menos é um projeto interessante. Que pode dar samba.

O último dele que não engoli foi Alice. Dark Shadows tem pontos interessantes.

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